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Linfedema primário

O Linfedema Primário é uma doença rara

O linfedema primário é uma doença rara, crónica e progressiva causada por alterações congénitas ou genéticas no desenvolvimento ou funcionamento do sistema linfático. Estas alterações reduzem a capacidade de drenagem da linfa, provocando a sua acumulação nos tecidos e originando um edema persistente, conhecido como linfedema.

Ao contrário do linfedema secundário, que surge após uma lesão do sistema linfático (como cirurgia, radioterapia, infeções ou traumatismos), o linfedema primário resulta de uma alteração intrínseca do próprio sistema linfático, presente desde o nascimento, ainda que possa apenas manifestar-se anos mais tarde.

Embora afete mais frequentemente os membros inferiores, o linfedema primário pode surgir em qualquer parte do corpo.

É uma doença crónica que requer acompanhamento ao longo da vida. Sem tratamento adequado, tende a progredir, provocando alterações cutâneas, fibrose, deposição de tecido adiposo, limitação funcional e um risco acrescido de infeções como a erisipela.

O que acontece no linfedema primário?

No linfedema primário, a doença resulta de uma alteração estrutural ou funcional dos vasos linfáticos.

Estas alterações podem incluir:

  • ausência de vasos linfáticos;
  • vasos pouco desenvolvidos;
  • vasos dilatados;
  • válvulas linfáticas incompetentes;
  • alterações genéticas que afetam o desenvolvimento do sistema linfático.

Como consequência, a linfa deixa de ser drenada de forma eficaz, acumulando-se progressivamente nos tecidos.

Com o passar dos anos, este edema provoca alterações irreversíveis, incluindo:

  • fibrose;
  • espessamento da pele;
  • deposição de gordura;
  • alterações da circulação linfática;
  • diminuição da mobilidade.

É uma doença rara?

Sim, o linfedema primário é raro. Na União Europeia considera-se doença rara qualquer doença que afete menos de 5 pessoas por cada 10.000 habitantes.

Segundo o Orphanet (ORPHA:77240), o linfedema primário apresenta uma prevalência estimada entre 1 e 5 pessoas por cada 10.000 habitantes, sendo por isso classificado como uma doença rara.

 

Quais são as causas?

O linfedema primário resulta de alterações do desenvolvimento do sistema linfático.

Pode apresentar-se sob diferentes formas:

  • esporádica;
  • hereditária;
  • associada a síndromes genéticas.

Nos últimos anos foram identificados diversos genes relacionados com a doença, incluindo alterações nos genes FLT4 (VEGFR3), FOXC2, GATA2, PIEZO1, CCBE1, EPHB4, FAT4 e outros.

Apesar dos avanços da genética, em muitos doentes ainda não é possível identificar a alteração responsável.


Quando aparece?

A doença pode manifestar-se em diferentes fases da vida.

Congénito

Presente ao nascimento ou durante o primeiro ano de vida.

Infância

Pode surgir durante o crescimento.

Adolescência

É um dos períodos mais frequentes de aparecimento dos primeiros sintomas.

Idade adulta

Algumas pessoas apenas desenvolvem edema após um fator desencadeante como:

  • gravidez;
  • traumatismo;
  • cirurgia;
  • infeção;
  • etc

Nestes casos, a alteração linfática já existia, mas permaneceu compensada durante vários anos.


Quais são os sintomas?

Os sintomas variam muito entre pessoas.

Os mais frequentes incluem:

  • aumento de volume de um ou mais membros;
  • sensação de peso;
  • desconforto;
  • tensão cutânea;
  • diminuição da mobilidade;
  • dificuldade em usar calçado ou roupa;
  • endurecimento progressivo da pele;
  • pregas cutâneas;
  • alterações das unhas;
  • episódios recorrentes de erisipela.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico baseia-se principalmente na avaliação clínica realizada por profissionais com experiência em doenças linfáticas.

Sempre que necessário podem ser realizados exames complementares como:

  • ecografia;
  • linfocintigrafia;
  • linfografia por fluorescência com indocianina verde (ICG);
  • ressonância magnética;
  • estudos genéticos.

O diagnóstico precoce é fundamental para retardar a progressão da doença e prevenir complicações.


Como é tratado?

Embora atualmente não exista cura, existem tratamentos eficazes que permitem controlar a doença.

O tratamento pode incluir:

  • Terapêutica Descongestiva Complexa;
  • compressão terapêutica;
  • exercício físico orientado;
  • cuidados da pele;
  • controlo do peso;
  • educação da pessoa com linfedema;
  • tratamento das infeções;
  • cirurgia, em casos selecionados.

Complicações

Sem tratamento adequado podem surgir:

  • fibrose;
  • deformidade do membro;
  • limitação funcional;
  • dor;
  • alterações psicológicas;
  • erisipela recorrente;
  • feridas de difícil cicatrização;
  • redução significativa da qualidade de vida.

Porque continua a ser pouco conhecido?

Apesar dos avanços científicos, o linfedema primário continua a ser uma doença pouco reconhecida.

Muitas pessoas esperam anos até obterem um diagnóstico correto, sendo frequentemente confundidas com obesidade, insuficiência venosa, lipedema ou outros tipos de edema.

A inexistência de um Registo Nacional de Linfedema dificulta ainda mais o conhecimento da verdadeira dimensão da doença em Portugal.


O compromisso da andLINFA

Defendemos:

  • diagnóstico precoce;
  • acesso equitativo a cuidados especializados;
  • equipas multidisciplinares;
  • acesso aos tratamentos recomendados internacionalmente;
  • criação de um Registo Nacional de Linfedema;
  • promoção da investigação científica;
  • aumento da literacia em saúde.

Acreditamos que conhecer a dimensão da doença é o primeiro passo para melhorar os cuidados e garantir que nenhuma pessoa com linfedema permanece invisível.


Referências bibliográficas
  1. Orphanet. ORPHA:77240 – Primary Lymphedema.
  2. International Society of Lymphology (ISL). Consensus Document of the International Society of Lymphology (2023).
  3. Devoogdt N, et al. Best Practice Document for the Management of Primary and Paediatric Lymphoedema in Europe. VASCERN, 2022.
  4. Gordon K, et al. St George's Classification for Primary Lymphatic Anomalies.
  5. Grada AA, Phillips TJ. Lymphedema: Pathophysiology and Clinical Manifestations. Journal of the American Academy of Dermatology. 2017.
  6. Damstra RJ, et al. Estudos sobre complicações cutâneas e erisipela no linfedema.
  7. Instituto Nacional de Estatística (INE). Estimativas da População Residente – 2025.

Cada vez mais há vozes unidas para a sensibilização do linfedema e existe um esforço global para que o dia 6 de março seja do Dia Mundial do Linfedema, neste momento ele já é assinalado assim assinalado.
Nos Estados Unidos existem Estados que conseguiram a sua aprovação, o mesmo acontecendo no Canadá. Em Portugal ainda não está aprovado o Dia Nacional.

Doença rara ou complexa relacionada

Linfedema (ORPHA79383)

Linfedema Congénito

– Sindrome de Milroy (ORPHA79452)

Linfedema de início tardio

– Sindrome de Meige (ORPHA90186)

– Linfedema – distiquíase (ORPHA33001)

– Sindrome de Emberger (ORPHA3226)

Linfedema com envolvimento sistémico

– Síndrome de Hennekam (ORPHA2136)

– PIEZO1 relacionado com Displasia Linfática

Linfedema com envolvimento sistémico

– Síndrome de Hennekam (ORPHA2136)

– PIEZO1 relacionado com Displasia Linfática

Sindromes Associados ao linfedema

– Sindrome Noonan/CFC (RASOpathies) (ORPHA648)

– Turner syndrome (ORPHA881)

– 22q13 microdeletion (ORPHA48652)

– Microcefalia – linfedema – coriorretinopatia (ORPHA2526)

A Rede Europeia de Referência VASCERN  tem um Grupo de trabalho sobre esta área.