Apesar de ter sido descrito pela primeira vez na década de 1940 pelos médicos Allen e Hines, da Clínica Mayo, o lipedema permaneceu durante décadas pouco reconhecido pela comunidade médica. Muitas mulheres foram incorretamente diagnosticadas com obesidade ou mesmo linfedema.
Um marco importante na história do reconhecimento da doença ocorreu apenas recentemente. Embora o lipedema seja conhecido há mais de 80 anos, foi apenas em 2019 que passou a ser oficialmente classificado como doença no Classificador Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (ICD-11). Esta classificação entrou efetivamente em vigor em 2022, representando um passo fundamental para o reconhecimento internacional da doença e para a melhoria do seu diagnóstico e tratamento.
Nos últimos anos, a investigação científica e a crescente sensibilização dos profissionais de saúde permitiram um melhor conhecimento do lipedema. Ainda assim, persistem desafios importantes, incluindo a necessidade de critérios diagnósticos mais uniformes e de uma melhor compreensão dos mecanismos envolvidos na doença.
Recentemente, a Lipedema World Alliance , de que a andLINFA é cofundadora, reuniu especialistas internacionais num processo de consenso científico (Delphi Consensus-Based Position Paper) para identificar os aspetos fundamentais do lipedema. Estas são algumas das conclusões mais relevantes.
O lipedema é uma doença crónica
Uma das conclusões que reuniu maior consenso entre os especialistas foi a de que o lipedema deve ser reconhecido como uma doença crónica. Esta definição reforça a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento adequado e da implementação de estratégias terapêuticas que permitam controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Afeta sobretudo mulheres
Os especialistas concordam que o lipedema afeta predominantemente mulheres biológicas. Embora a sua ocorrência em homens seja possível, os casos descritos são raros.
A doença parece estar fortemente associada a fatores hormonais e hereditários. Muitas mulheres referem o aparecimento ou agravamento dos sintomas em períodos de grandes alterações hormonais, como a puberdade, a gravidez ou a menopausa. As alterações tornam-se frequentemente mais evidentes na adolescência, embora possam adquirir maior expressão clínica ao longo da vida adulta, particularmente após os 35 anos.
Uma doença do tecido adiposo
Atualmente, sabe-se que o lipedema é uma doença do tecido adiposo subcutâneo, a camada de gordura localizada sob a pele. Embora a sua causa exata permaneça desconhecida, os dados disponíveis indicam que se trata essencialmente de uma doença da célula gorda, com repercussões ao nível dos sistemas linfático e venoso.
O tecido afetado apresenta alterações que vão além do simples aumento da gordura corporal, envolvendo também vasos sanguíneos, matriz extracelular, fibras de colagénio e células inflamatórias.
Aumento simétrico de volume e desproporção corporal
O lipedema caracteriza-se tipicamente por um aumento bilateral e simétrico do tecido adiposo, sobretudo nas pernas e ancas, podendo também envolver os braços.
Uma característica frequentemente descrita pelas pessoas afetadas é a desproporção entre a metade inferior e superior do corpo. Mesmo quando ocorre perda de peso através de dieta equilibrada e exercício físico — medidas importantes para a saúde geral — as ancas, coxas e pernas tendem a permanecer desproporcionalmente aumentadas em comparação com o tronco.
Esta resistência à redução de volume nas áreas afetadas é uma das características distintivas da doença.
Dor, sensibilidade e sensação de peso
Ao contrário da obesidade comum, o lipedema está frequentemente associado a sintomas físicos significativos.
As pessoas com lipedema relatam frequentemente:
- Dor espontânea nas áreas afetadas;
- Sensibilidade aumentada ao toque ou à pressão;
- Desconforto durante a palpação;
- Sensação de peso nas pernas ou braços;
- Sensação de tensão ou inchaço ao longo do dia.
A dor parece localizar-se predominantemente nas áreas afetadas pelo aumento do tecido adiposo.
O papel dos líquidos e da circulação
Embora o edema clássico com depressão ao toque (sinal de godet) geralmente não esteja presente, os especialistas consideram existir evidência crescente de que o volume de líquido extracelular poderá estar aumentado nos tecidos afetados pelo lipedema quando comparados com indivíduos sem a doença e com índice de massa corporal semelhante.
Esta observação poderá ajudar a explicar a frequente sensação de inchaço e peso relatada pelos doentes, bem como as alterações observadas nos sistemas linfático e venoso. No entanto, esta continua a ser uma área em investigação e são necessários mais estudos para compreender plenamente o seu significado clínico.
Inflamação: uma hipótese cada vez mais relevante
Outra das conclusões do consenso internacional é que diversos achados científicos sugerem que a inflamação poderá desempenhar um papel importante no desenvolvimento e progressão do lipedema.
Embora ainda não exista uma explicação definitiva para os mecanismos envolvidos, esta é atualmente uma das áreas de investigação mais promissoras e poderá contribuir para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas no futuro.
Um maior reconhecimento para um melhor cuidado
O reconhecimento do lipedema como doença no ICD-11 e o crescente consenso científico internacional representam avanços importantes para milhões de pessoas afetadas em todo o mundo.
Apesar dos progressos alcançados, continua a ser fundamental aumentar a sensibilização da população e dos profissionais de saúde. Um diagnóstico precoce permite iniciar estratégias de tratamento adequadas, reduzir o impacto físico e emocional da doença e melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas com lipedema.
O conhecimento científico sobre o lipedema continua a evoluir, mas existe hoje uma certeza cada vez mais sólida: o lipedema é uma doença real, crónica e complexa, que merece reconhecimento, investigação e cuidados especializados e, ainda, muito investigação.

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