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2º Congresso Mundial do Lipedema, por Sílvia Gariso

O Congresso Mundial do Lipedema foi, sem dúvida, um marco importante. Reuniu investigadores e clínicos de várias áreas, confirmou avanços relevantes e, acima de tudo, mostrou que estamos finalmente a olhar para o lipedema com mais seriedade científica. Ainda assim, como em qualquer área emergente, deixou também questões em aberto – e é precisamente aí que reside a sua importância.

Uma das primeiras reflexões que me surgiu foi a predominância clara da visão médica. Embora absolutamente essencial, senti falta de uma presença mais expressiva da nutrição clínica no debate. O lipedema não se trata apenas com diagnóstico ou cirurgia; vive-se diariamente no corpo, no metabolismo, na inflamação e na relação com a alimentação. Ignorar essa dimensão é limitar o impacto real da intervenção.

Quando a ciência começa a confirmar a prática

O que mais me marcou neste congresso foi, curiosamente, a confirmação científica de várias abordagens que já integro na minha prática clínica.

A atividade mastocitária associada ao lipedema começou finalmente a ser mencionada e investigada. Ainda de forma inicial, é verdade, mas já com espaço em comunicações científicas. Para quem acompanha pacientes com lipedema há anos, esta ligação entre inflamação, histamina, sistema imunitário e tecido adiposo disfuncional faz todo o sentido. Ver este tema emergir no contexto científico foi, para mim, um dos pontos mais relevantes do congresso.

Outro tema central foi o uso de fármacos como a tirzepatida como potencial aliado no lipedema. Importa sublinhar algo essencial: não estamos a falar apenas de perda de peso. O foco esteve, sobretudo, na redução da inflamação sistémica, um dos pilares da progressão da doença. Os dados apresentados são promissores, mas exigem prudência. Não existe – nem pode existir – uma abordagem “one size fits all”. Cada paciente precisa de uma avaliação cuidadosa, contextualizada e individualizada. A tirzepatida pode ser um aliado em determinados perfis, mas não é, nem deve ser apresentada como, uma solução universal.

Cirurgia: papel relevante, mas não isolado

A cirurgia específica para lipedema foi outro ponto amplamente discutido. Ficou claro que não estamos a falar de uma cirurgia plástica convencional, mas de uma intervenção com impacto direto na redução do tecido afetado pela doença. Quando bem indicada, pode ter um papel importante. Mais interessante ainda foi a discussão sobre a possibilidade de integrar abordagens – cirurgia, controlo inflamatório, acompanhamento nutricional e, em alguns casos, terapêutica farmacológica – numa estratégia mais abrangente e sustentada.

Nutrição: menos dogma, mais realidade

Na área da nutrição, houve um momento particularmente relevante. Apesar de muitos estudos continuarem a apontar para abordagens low-carb ou cetogénicas, foi finalmente lançado um desafio importante: a diferença entre o que funciona em estudos e o que é sustentável na vida real.

Um dos nutricionistas presentes defendeu algo com que me identifico profundamente: uma abordagem qualitativa, focada na redução da inflamação, na qualidade alimentar e na adesão a longo prazo, em vez de dietas altamente restritivas. Na prática clínica, é precisamente aí que vemos melhores resultados — não apenas em sintomas, mas em qualidade de vida, consistência e relação com o corpo.

Este ponto reforça uma ideia fundamental: a ciência não deve ser interpretada fora do contexto humano. Protocolos sem adesão não geram resultados.

O caminho que ainda falta percorrer

O lipedema continua a ser uma área recente do ponto de vista científico. Há avanços, sem dúvida, mas ainda faltam estudos longitudinais robustos, dados populacionais mais consistentes e, em países como Portugal, investigação específica que nos permita compreender melhor esta realidade na nossa população.

O futuro do tratamento do lipedema passa, inevitavelmente, por equipas multidisciplinares, por uma visão integrativa e por uma escuta ativa das pacientes. Passa também por aceitar que nem tudo está fechado, que há espaço para questionar, investigar e ajustar.

Este congresso não trouxe respostas definitivas – trouxe algo mais valioso: direção. E, para quem está diariamente na prática clínica, trouxe sobretudo mais robustez para defender uma abordagem individualizada, humana e baseada tanto na ciência como na realidade de quem vive com lipedema.

texto: Sílvia Gariso

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