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GLP-1 e linfedema: uma nova esperança no horizonte?

Há cada vez mais investigação sobre o possível papel dos agonistas do GLP-1 no sistema linfático. Uma nova revisão sistemática reúne agora os dados disponíveis e reforça o interesse nesta área. Mas é importante deixar claro: ainda não estamos perante um tratamento para o linfedema.

No seguimento do artigo publicado anteriormente pela andLINFA sobre o potencial do GLP-1 no funcionamento do sistema linfático, trazemos agora uma nova publicação que merece ser conhecida por todas as pessoas que vivem com linfedema.

Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, intitulada “GLP-1 Agonists in Lymphedema: A Systematic Review of Clinical Evidence”, apresentada em formato de poster no âmbito do Congresso da Association of Surgeons in Training (ASiT) e posteriormente publicada no British Journal of Surgery, em julho de 2026.


O que procuraram os autores?

Os autores quiseram perceber o que já se sabe sobre a utilização dos agonistas dos recetores do GLP-1 (GLP-1 RAs) em pessoas com linfedema secundário.

A pergunta é particularmente importante porque, atualmente, não existe uma terapêutica farmacológica estabelecida especificamente para melhorar a função do sistema linfático no linfedema.

Para procurar respostas, os investigadores fizeram uma pesquisa sistemática em seis bases de dados científicas:

  • PubMed
  • Ovid MEDLINE
  • Embase
  • Scopus
  • CINAHL
  • Cochrane

A pesquisa incluiu os trabalhos disponíveis desde o início dos registos até novembro de 2025 e foi realizada de acordo com as orientações PRISMA 2020, que ajudam a garantir que uma revisão sistemática segue um processo transparente e organizado.

E o que encontraram?

Aqui está a parte que merece a nossa atenção.

Apesar de toda a pesquisa realizada, os autores encontraram apenas três estudos primários que cumpriam os critérios definidos:

  • uma coorte retrospetiva;
  • dois estudos de caso.

Foram ainda consideradas duas revisões narrativas para ajudar a contextualizar os resultados.

Ou seja: há sinais promissores, mas ainda são poucos os estudos disponíveis.

Nos trabalhos analisados, a utilização de agonistas do GLP-1 esteve associada a:

  • redução do volume do membro;
  • melhoria observada na imagiologia linfática;
  • alterações metabólicas e inflamatórias favoráveis;
  • boa tolerabilidade global, com efeitos adversos sobretudo gastrointestinais ligeiros.


E as 3.830 pessoas?

Um dos resultados que mais chama a atenção diz respeito a uma coorte de 3.830 pessoas com cancro da mama que tinham sido submetidas a esvaziamento dos gânglios linfáticos axilares.

Neste grupo, a utilização de agonistas do GLP-1 esteve associada a uma incidência substancialmente mais baixa de linfedema em comparação com a não utilização destes medicamentos.

É, contudo, importante explicar este dado corretamente.

As 3.830 pessoas não eram necessariamente todas pessoas com linfedema secundário.

Tratava-se de um grupo de pessoas com cancro da mama após cirurgia e após esvaziamento ganglionar, ou seja, uma população com risco de desenvolver linfedema. O estudo avaliou a associação entre a utilização de GLP-1 e o aparecimento de linfedema.

Esta distinção é importante para não transformar um resultado promissor numa conclusão que o estudo não permite retirar.

Então, os GLP-1 podem tratar o linfedema?

Ainda não sabemos.

E esta é a parte mais importante desta notícia.

Os resultados disponíveis sugerem que os agonistas do GLP-1 podem ter efeitos favoráveis no linfedema e no funcionamento do sistema linfático.

Mas a própria revisão salienta que a evidência disponível continua limitada a estudos de baixo nível e que são necessários estudos prospetivos, bem desenhados e com maior capacidade para confirmar estes resultados.

Por isso, os agonistas do GLP-1 não são atualmente uma indicação terapêutica para o linfedema.

Não devemos confundir uma possibilidade científica com um tratamento comprovado.

Porque é que esta investigação é tão importante?

Porque estamos a falar de uma questão que há muito preocupa quem vive com linfedema:

poderá existir, no futuro, um medicamento que atue efetivamente sobre o próprio linfedema?

Os medicamentos GLP-1 são conhecidos sobretudo pela sua utilização na obesidade e em determinadas doenças metabólicas.

Mas os investigadores estão agora a estudar outros possíveis efeitos destes medicamentos, incluindo efeitos metabólicos e anti-inflamatórios que poderão estar relacionados com o funcionamento do sistema linfático.

É por isso que esta investigação merece ser acompanhada.

A esperança não é simplesmente encontrar mais um medicamento para perder peso.

A esperança é que esta investigação possa contribuir para descobrir, no futuro, um tratamento farmacológico capaz de atuar sobre os mecanismos envolvidos no linfedema.

Há cada vez mais evidência?

Podemos dizer que há cada vez mais investigação e sinais que justificam continuar a estudar esta possibilidade.

Uma revisão científica publicada em 2026 sobre tratamentos farmacológicos na prevenção e tratamento do linfedema relacionado com o cancro da mama também identificou resultados promissores associados aos GLP-1, incluindo dados da coorte de 3.830 pessoas. Ao mesmo tempo, os autores salientam as limitações da evidência existente. (PubMed Central (PMC))

Por isso, talvez a melhor forma de resumir o momento atual seja:

Estamos a passar da hipótese para uma evidência inicial, mas ainda não chegámos à prova.

E essa diferença é fundamental.

E quanto aos GLP-1 em comprimido?

A investigação e o desenvolvimento destes medicamentos estão também a evoluir rapidamente, incluindo formulações administradas por via oral.

Mas é importante separar duas questões:

Uma coisa é existir um GLP-1 em comprimido para uma indicação autorizada, como o controlo do peso.

Outra, completamente diferente, é existir um medicamento GLP-1 autorizado para tratar o linfedema.

Neste momento, não existe uma indicação aprovada para utilizar agonistas do GLP-1 especificamente como tratamento do linfedema.

Assim, mesmo que a utilização destes medicamentos continue a crescer e que novas formulações sejam desenvolvidas, isso não significa que tenhamos já encontrado o tão desejado “medicamento para o linfedema”.

O que precisamos agora?

Precisamos de mais investigação.

Precisamos de estudos com mais pessoas, realizados de forma prospetiva e controlada, que permitam responder a perguntas fundamentais:

  • Os GLP-1 reduzem realmente o volume do membro com linfedema?
  • Estaremos apenas a falar de linfedema secundário ou também pode ser aplicado ao linfedema primário?
  • Podem melhorar o funcionamento do sistema linfático?
  • O efeito é independente da perda de peso?
  • Quais são os mecanismos envolvidos?
  • Quais são os doentes que mais poderão beneficiar?
  • Qual é a dose adequada?
  • Durante quanto tempo deve ser utilizado?
  • Quais são os efeitos a longo prazo?
  • E, sobretudo, são seguros para pessoas com linfedema?

Só depois de termos respostas mais sólidas poderemos saber se esta esperança se poderá transformar numa verdadeira opção terapêutica.


A mensagem da andLINFA

Para quem vive com linfedema, esta investigação pode ser recebida com esperança. Mas a esperança deve caminhar lado a lado com a ciência.


Os resultados são promissores.

A investigação está a avançar.

A evidência está a crescer.

Mas ainda não existe um medicamento GLP-1 indicado para tratar o linfedema.

Por isso, não recomendamos que ninguém inicie, altere ou suspenda um tratamento com GLP-1 com o objetivo de tratar o linfedema sem indicação e acompanhamento médico.

O que esta investigação nos dá, neste momento, é algo muito importante:

a possibilidade de, no futuro, podermos ter uma terapêutica farmacológica que atue efetivamente sobre o linfedema.

E, para quem vive diariamente com esta doença, essa possibilidade merece ser acompanhada.

Em poucas palavras

O que sabemos?
Existem resultados iniciais promissores.

O que não sabemos?
Se os GLP-1 conseguem realmente tratar o linfedema e de que forma o fazem.

O que falta?
Estudos maiores, prospectivos e controlados.

É um tratamento para o linfedema?
Não.

É uma esperança?
Sim.

E é uma esperança que merece continuar a ser investigada?
Sem dúvida.

Glossário: palavras “difíceis”, explicadas de forma simples

GLP-1

É uma substância produzida naturalmente pelo nosso organismo que participa, entre outras funções, na regulação do açúcar no sangue, do apetite e da digestão.

Agonista do GLP-1

É o termo médico utilizado para determinados medicamentos que ativam o recetor do GLP-1 e imitam a ação desta substância natural do organismo.

Para simplificar: podemos pensar num agonista como um “imitador” da ação do GLP-1.

Por isso, quando encontrar neste artigo as expressões “agonista do GLP-1”, “GLP-1 RA” ou “medicamento GLP-1”, estamos a falar deste grupo de medicamentos.


Coorte

É um grupo de pessoas que é acompanhado ou analisado para perceber o que acontece ao longo do tempo.

Uma forma simples de imaginar uma coorte é pensar numa “fotografia em movimento”: em vez de vermos apenas um momento, observamos o que acontece a um grupo de pessoas ao longo do tempo.

Estudo retrospetivo

É um estudo que olha para informação que já existe.

Os investigadores analisam dados de pessoas que já foram acompanhadas e procuram perceber se existe alguma relação entre determinados tratamentos e determinados resultados.

Estudo de caso

É um estudo que descreve detalhadamente o que aconteceu com uma pessoa ou com um pequeno número de pessoas.

Pode ser muito importante para levantar novas hipóteses, mas, sozinho, não permite dizer que um tratamento funciona para todas as pessoas.


Revisão sistemática

É uma forma estruturada de procurar e analisar os estudos científicos existentes sobre uma determinada pergunta.

Em vez de olhar apenas para um estudo, os investigadores procuram reunir os estudos que cumprem determinados critérios e analisá-los em conjunto.

PRISMA

É um conjunto de orientações internacionais que ajuda os investigadores a explicar, de forma transparente, como foi realizada uma revisão sistemática: onde procuraram, que estudos encontraram, quais foram excluídos e quais foram analisados.


Evidência científica

É o conhecimento obtido através da investigação científica.

Mas nem toda a evidência tem a mesma força. Um resultado observado num estudo pequeno ou num relato de caso não tem o mesmo peso que um resultado confirmado em vários estudos grandes e bem controlados. Por outro lado uma evidência científica fica enviesada se esta  for encomendada pela indústria (por exemplo)

Incidência

É o número de novos casos de uma doença ou condição que aparecem numa determinada população durante um determinado período.

Neste artigo, quando se fala numa menor incidência de linfedema, significa que foram observados menos novos casos de linfedema no grupo que utilizava GLP-1.

Efeitos adversos

São efeitos indesejáveis que podem surgir durante a utilização de um  medicamento.

Na revisão analisada, foram referidos sobretudo efeitos gastrointestinais ligeiros e um caso em que foi necessário ajustar a dose devido à supressão do apetite e à preocupação com uma possível desnutrição.

 

Importante

Esta informação tem finalidade exclusivamente informativa e não constitui uma recomendação para utilização de medicamentos GLP-1 no tratamento do linfedema.

Qualquer medicamento deve ser iniciado, alterado ou suspenso apenas com orientação de um profissional de saúde.

 

Referência científica

Wong JJE, Alderhali R, Jameel M, Seth I, Ruccia F, Khajuria A. GLP-1 Agonists in Lymphedema: A Systematic Review of Clinical Evidence. British Journal of Surgery. 2026;113(Supplement_6):znag063.695. Publicado em 10 de julho de 2026.

Consultar a publicação científica no British Journal of Surgery

MATERIAL DE APOIO: