
LIPLEG: a evidência mudou. E agora, Portugal?
2026-09-04
Este comentário baseia-se no "Liposuction versus conservative therapy for patients with lipoedema in Germany: a multicentre, randomised controlled clinical trial",publicado no The Lancet, em 5 set 2026 e não deve esquecer todo o percurso já feito na Alemanha (aqui)Da demonstração do benefício da lipoaspiração à necessidade de uma via nacional de cuidados para o lipedema
A publicação do estudo LIPLEG no The Lancet, em setembro de 2026, representa um momento importante na história do tratamento do lipedema. Pela primeira vez, dispomos dos resultados de um grande ensaio clínico multicêntrico, randomizado e controlado que comparou diretamente a lipoaspiração com o tratamento conservador em mulheres com lipedema sintomático nos estadios I, II e III.
Para a andLINFA, este estudo não deve ser interpretado como uma resposta simples à pergunta “devem as pessoas com lipedema ser operadas?”.
A sua importância é outra.
A publicação do LIPLEG não deve ser entendida como um apelo à cirurgia para todas as pessoas com lipedema. Deve ser entendida como um apelo a Portugal para avaliar a nova evidência e construir uma resposta organizada para a doença.
Porque, perante estes resultados, a discussão já não deveria limitar-se a saber se a lipoaspiração “funciona”.
Precisamos agora de discutir como transformar evidência científica em cuidados de saúde seguros, equitativos e baseados em critérios clínicos.
O que demonstrou o LIPLEG?
O estudo envolveu 410 mulheres com lipedema sintomático, distribuídas aleatoriamente entre lipoaspiração e tratamento conservador. Antes dessa randomização, todas tinham realizado um período de tratamento conservador, precisamente para reduzir eventual edema e estabelecer condições basais comparáveis.
O objetivo principal era muito concreto: perceber quantas participantes conseguiam uma redução de pelo menos 2 pontos na dor das pernas, numa escala de 0 a 10, aos 12 meses.
Os resultados foram expressivos:
68% das participantes atribuídas à lipoaspiração atingiram essa redução clinicamente relevante da dor.
No grupo que continuou apenas com tratamento conservador, foram: 8%.
A diferença foi estatisticamente muito significativa: OR 26,2; IC 95% 13,1–52,5; p<0,0001.
A intensidade média da dor também ajuda a perceber a dimensão da diferença. No início, era semelhante nos dois grupos: 6,2/10 no grupo da lipoaspiração e 6,3/10 no grupo conservador. Aos 12 meses, tinha diminuído para 2,6/10 no primeiro, enquanto era 6,6/10 no segundo.
E não foi apenas a dor.
Foram observadas melhorias em diferentes dimensões da qualidade de vida, saúde física e tendência para hematomasa
E não aconteceu apenas no estadio III
Este é outro resultado particularmente relevante.
A proporção de participantes que atingiu a redução clinicamente relevante da dor foi:
Estadio Lipoaspiração Tratamento conservador I 67,8% 9,5% II 72,6% 6,7% III 64,5% 6,7% As diferenças foram significativas nos três estádios.
Isto merece atenção porque obriga-nos a não confundir estádio morfológico com necessidade clínica.
A guideline alemã S2k já recomenda que a indicação para lipoaspiração não seja determinada pelo estádio convencional, devendo ser considerados fatores como dor refratária ao tratamento conservador, limitações da mobilidade e outras complicações.
O LIPLEG acrescenta agora evidência experimental importante: o benefício sobre a dor foi encontrado nos três estádios estudados.
Mas o LIPLEG não diz que todas as pessoas devem ser operadas
Esta distinção é fundamental.
As participantes no LIPLEG não eram simplesmente mulheres a quem tinha sido diagnosticado lipedema. Existiam critérios de inclusão e exclusão, tinham dor significativa – pelo menos 4/10 – e tinham realizado tratamento conservador antes da randomização.
A cirurgia também não foi realizada por profissionais sem experiência específica. Os cirurgiões participantes tinham efetuado pelo menos 30 lipoaspirações em pessoas com lipedema nos dois anos anteriores.
E, como qualquer cirurgia, a lipoaspiração teve riscos.
Pelo menos um evento adverso foi registado em 46,8% das participantes submetidas a lipoaspiração, comparativamente com 20,7% no grupo conservador. Eventos adversos graves ocorreram em 7,5% e 3,4%, respetivamente.
Foram registados, entre outros, erisipela, diminuição pós-operatória da hemoglobina, seroma, abcesso do local cirúrgico, trombose venosa e dor pós-operatória.
Portanto, o LIPLEG não é um argumento para “cirurgia para todas”.
É um argumento para que a cirurgia, quando considerada, seja enquadrada numa decisão clínica informada, criteriosa e segura.
Também não é “tratamento conservador ou cirurgia”
Há um resultado do LIPLEG que consideramos particularmente importante para os doentes compreenderem.
A maioria das participantes submetidas a lipoaspiração também recebeu tratamento conservador durante o período cirúrgico e, depois da última lipoaspiração, 69% das mulheres operadas continuavam a realizar tratamento conservador.
Isto impede outra simplificação frequente:
tratamento conservador OU cirurgia.
Na realidade, podem ser componentes diferentes de um percurso terapêutico.
Uma pessoa pode necessitar de tratamento conservador antes da cirurgia, beneficiar de uma intervenção cirúrgica e continuar a precisar de algumas medidas conservadoras posteriormente.
O tratamento deve ser construído em função da pessoa, dos seus sintomas, da sua resposta e das suas necessidades.
O que significa tudo isto para Portugal?
É aqui que, para a andLINFA, começa a verdadeira discussão.
O LIPLEG não cria automaticamente em Portugal um direito à lipoaspiração através do Serviço Nacional de Saúde.
Também não define qual deverá ser o modelo português (estamos num estudo feito com a realidade alemã – ver aqui.
Mas altera substancialmente a base científica sobre a qual essa discussão pode ser feita.
Até agora, a ausência de estudos clínicos randomizados de grande dimensão constituía uma limitação importante da evidência disponível. O próprio LIPLEG foi concebido precisamente porque a evidência anterior provinha sobretudo de pequenas séries não controladas e estudos retrospetivos.
Essa realidade mudou.
O LIPLEG é agora um estudo clinico randomizado publicado numa revista científica de referência e os próprios autores concluem que a lipoaspiração foi superior ao tratamento conservador na redução da dor e na melhoria da qualidade de vida, embora associada a mais eventos adversos graves.
A publicação científica está igualmente indexada no PubMed como ensaio multicêntrico randomizado e controlado.
Na Alemanha, esta evidência já teve consequências na política de saúde. O G-BA confirmou, a 4 de setembro de 2026, que os resultados do LIPLEG estiveram na base da decisão de julho de 2025 de integrar a lipoaspiração para o lipedema, independentemente do estádio, no catálogo regular de prestações do seguro de saúde estatutário alemão.
Portugal não tem de copiar o modelo alemão.
Mas Portugal deve olhar para a evidência.
Precisamos de uma via de cuidados – não apenas de acesso a uma cirurgia
Uma resposta organizada ao lipedema não começa no bloco operatório.
Começa muito antes.
Para a andLINFA, uma via nacional de cuidados para o lipedema deveria permitir que um doente soubesse onde recorrer perante suspeita da doença, tivesse acesso a diagnóstico adequado, fosse avaliada em função dos seus sintomas e impacto funcional, pudesse realizar o tratamento conservador indicado e fosse posteriormente reavaliado.
Quando os sintomas permanecessem clinicamente relevantes apesar de tratamento adequado, deveria existir um percurso definido para avaliar outras possibilidades terapêuticas, incluindo a lipoaspiração.
Esse percurso poderia ser pensado desta forma (apenas um exemplo para base de reflexão):
Esta não é uma proposta de guideline clínica da andLINFA, reafirmamos. Os critérios concretos terão necessariamente de ser definidos pelas autoridades de saúde e pelos profissionais e sociedades científicas competentes, com participação dos representantes dos doentes.É uma proposta base de princípios para uma via de cuidados.
Não se pode exigir um tratamento conservador que não esteja verdadeiramente acessível
Este é um ponto particularmente importante para Portugal.
O LIPLEG estudou mulheres, na Alemanha, sublinhamos, que tinham passado previamente por tratamento conservador.
Se Portugal vier a estabelecer que deve existir um período adequado de tratamento conservador antes de considerar a lipoaspiração, então temos de fazer a pergunta seguinte:
Esse tratamento está realmente acessível às pessoas com lipedema?
Não é coerente exigir que um doente demonstre ausência de resposta a um tratamento se esse mesmo tratamento não lhe é disponibilizado de forma adequada e acessível.
Uma via de cuidados tem, por isso, de discutir não apenas a cirurgia, mas também o acesso às diferentes componentes do tratamento conservador que venham a ser clinicamente indicados.
E se, depois desse percurso, existir indicação para lipoaspiração?
Chegamos então à questão que não pode continuar a ser ignorada: quem paga?
A pergunta não deveria ser simplesmente: “O SNS deve pagar lipoaspirações?”
Deveria ser: Se uma pessoa tem uma doença, realizou o percurso assistencial definido, mantém sintomas clinicamente relevantes e, depois de uma avaliação adequada e independente, existe indicação para uma intervenção com benefício sustentado pela evidência científica disponível, deverá o acesso a esse tratamento depender da sua capacidade económica?
Para a andLINFA, a resposta deve ser orientada pelo princípio da equidade.
A posição da andLINFA
A publicação do LIPLEG não deve ser entendida como um apelo à cirurgia para todas as pessoas com lipedema. Deve ser entendida como um apelo a Portugal para avaliar a nova evidência e construir uma resposta organizada para a doença.
A andLINFA defende uma via nacional de cuidados para o lipedema, que assegure diagnóstico adequado, acesso ao tratamento conservador, critérios clínicos transparentes para a referenciação cirúrgica, avaliação independente, profissionais qualificados, acompanhamento e monitorização dos resultados.
Quando, após esse percurso, a lipoaspiração for considerada clinicamente indicada, o acesso ao tratamento não deveria depender da capacidade económica da pessoa.
Equidade não significa submeter a cirurgia todas as pessoas. Significa, isso sim, que duas pessoas com a mesma necessidade clínica devem ter a mesma possibilidade de acesso ao tratamento adequado.
O LIPLEG não encerra a investigação sobre a lipoaspiração no lipedema. Permanecem questões importantes, incluindo a durabilidade dos resultados, a necessidade futura de tratamento conservador ou de novas intervenções, a técnica cirúrgica mais adequada e a segurança a longo prazo. O seguimento prolongado do estudo é, por isso, fundamental.
Mas esperar por mais conhecimento não significa ignorar o conhecimento que já temos.
O desafio que o LIPLEG coloca agora a Portugal é outro:
Como vamos transformar esta nova evidência em melhores cuidados para as pessoas que vivem com lipedema?
Essa é uma discussão que está ainda mal definida, também no nosso país , e que a andLINFA considera que deve começar agora.
