
Valência 2026: quatro dias de ciência, debate e novos caminhos no linfedema e lipedema
2026-09-28
Entre 23 e 26 de setembro de 2026, Valência recebeu o 48th Congress of the European Society of Lymphology (ESL) e o 1st Congress of the Spanish Group of Lymphology (GEL), no Hospital Universitari i Politècnic La Fe.
Foram quatro dias de ciência, debate, formação e partilha, reunindo profissionais de diferentes países e áreas de especialização em torno das doenças do sistema linfático. O Congresso GEL decorreu nos dias 23 e 24 e o Congresso ESL nos dias 25 e 26 de setembro, sob a presidência de Dra Isabel Forner-Cordero.
A andLINFA esteve presente ao longo dos quatro dias, acompanhando as diferentes sessões científicas e participando também ativamente neste espaço internacional de conhecimento.
Uma visão cada vez mais abrangente da linfologia
O programa mostrou bem como a linfologia é hoje uma área necessariamente multidisciplinar.
Ao longo das diferentes sessões foram abordados temas relacionados com linfedema primário e secundário, linfedema pediátrico, linfedema associado ao cancro, lipedema, diagnóstico e avaliação, imagiologia, compressão, exercício físico, terapia descongestiva, alterações dos tecidos, nutrição, cirurgia, microcirurgia e lipoaspiração, entre outros.
A diversidade das comunicações, posters, workshops e mesas de discussão permitiu cruzar investigação, experiência clínica e novas propostas terapêuticas. O programa contou com especialistas internacionais de diferentes áreas da linfologia, incluindo medicina, cirurgia, fisioterapia e investigação.
Um dos aspetos que consideramos particularmente importantes foi a atenção dada à necessidade de reconhecer a insuficiência linfática e as alterações dos tecidos o mais precocemente possível, procurando intervir antes de se instalarem alterações mais difíceis de reverter.
Tratamento conservador: muito mais do que uma única intervenção
A terapêutica conservadora esteve presente em diferentes momentos do Congresso.
Compressão, exercício físico, drenagem linfática, ligaduras, avaliação funcional e educação para o autocuidado foram discutidos não apenas enquanto técnicas isoladas, mas como componentes de uma abordagem que necessita de ser adaptada à pessoa, à doença e à sua evolução.
Foram igualmente apresentados trabalhos procurando medir de forma mais objetiva os resultados das intervenções — desde alterações do volume e dos tecidos até à mobilidade, equilíbrio, qualidade de vida e resposta à compressão.
Esta preocupação em medir, comparar e questionar práticas estabelecidas é particularmente importante numa área em que nem todas as recomendações dispõem ainda do mesmo nível de evidência.
Cirurgia e microcirurgia: compreender quem pode beneficiar
A abordagem cirúrgica constituiu outro dos grandes eixos do programa.
Foram discutidos os fundamentos fisiopatológicos da cirurgia, a anastomose linfático-venosa (LVA), diferentes procedimentos de microcirurgia, a preparação e o acompanhamento perioperatórios e os resultados a longo prazo de técnicas como a lipoaspiração reconstrutiva.
Houve também espaço para situações particularmente complexas, como o linfedema genital, mostrando a necessidade de abordagens multidisciplinares e individualizadas.
Mais do que apresentar a cirurgia como uma resposta única, as discussões reforçaram a importância da seleção adequada dos doentes, avaliação, indicação, integração com o tratamento conservador e acompanhamento a longo prazo.
O lipedema também esteve em destaque
Foi particularmente positivo verificar que o lipedema ocupou um espaço significativo no programa científico, com apresentações, comunicações e discussões dedicadas especificamente à doença.
Entre os temas abordados estiveram a função do tecido adiposo subcutâneo, o diagnóstico diferencial entre lipedema e linfedema, dor, inflamação, nutrição, compressão, impacto psicossocial e abordagens cirúrgicas.
Entre as comunicações orais estiveram, por exemplo, trabalhos comparando malhas planas e circulares na gestão do lipedema, analisando comorbilidades numa coorte de pessoas com lipedema e avaliando a carga psiquiátrica e psicossocial no linfedema e lipedema. O programa incluiu ainda uma comunicação sobre cirurgia do lipedema.
Para a andLINFA, que acompanha há vários anos a evolução do conhecimento nesta área, é muito importante assistir ao crescente interesse científico pelo lipedema.
Esse interesse não significa que todas as perguntas estejam respondidas — muito pelo contrário. Quanto mais se investiga, mais evidente se torna aquilo que ainda precisamos de compreender.
A andLINFA também levou a voz dos doentes a Valência
O último dia do Congresso teve um significado muito especial para a andLINFA.
A nossa Presidente, Manuela Lourenço Marques, integrou o programa científico como palestrante, apresentando:
“Primary and Paediatric Lymphoedema at VASCERN: When Healthcare Professionals and ePAG Advocates Work as a Team”
Manuela Lourenço Marques integra desde 2019, enquanto ePAG Advocate, o VASCERN PPL – Paediatric and Primary Lymphoedema Working Group.
A apresentação permitiu dar a conhecer o trabalho desenvolvido neste grupo e, sobretudo, mostrar uma dimensão que consideramos fundamental: o que pode acontecer quando profissionais de saúde e representantes dos doentes deixam de trabalhar em percursos paralelos e começam verdadeiramente a trabalhar em conjunto.
No VASCERN PPL, identificar necessidades, escolher temas, discutir prioridades, desenvolver materiais, rever conteúdos, validar informação, traduzir e disseminar conhecimento resulta de um processo colaborativo entre profissionais de saúde e representantes dos doentes.
É deste trabalho que têm surgido recursos dirigidos não apenas aos profissionais, mas também às pessoas com linfedema primário e pediátrico e às suas famílias, procurando fazer chegar conhecimento validado a quem dele necessita.
E é precisamente aqui que a experiência do doente acrescenta uma dimensão insubstituível: ajuda a transformar conhecimento científico em informação e ferramentas que possam ser compreendidas e utilizadas na vida real.
Também os encontros fazem parte dos congressos
Um congresso internacional faz-se de ciência e conhecimento, mas também das pessoas que encontramos e das relações que se constroem e reforçam.
Foi, por isso, muito bom encontrar entre a assistência o Fisioterapeuta Prof. Nuno Duarte, membro do Conselho Consultivo da andLINFA.
A sua presença num congresso internacional dedicado à linfologia traduz também a importância de os profissionais que colaboram com a nossa Associação continuarem próximos da evolução do conhecimento científico e da discussão internacional nesta área.
Foi igualmente com muita alegria que encontrámos entre a assistência o Prof. Miikka Vikkula, coordenador do VASCERN VASCA – Vascular Anomalies Working Group, grupo de trabalho dedicado às anomalias vasculares, de que também fazemos parte
Este encontro teve para nós um significado especial, também pela ligação da andLINFA à VASCERN – European Reference Network on Rare Multisystemic Vascular Diseases e pelo trabalho que desenvolvemos e acompanhamos na área das doenças vasculares raras.
Momentos como estes recordam-nos que os congressos são também espaços privilegiados para aproximar diferentes áreas, reencontrar parceiros das redes europeias, trocar experiências e reforçar relações de colaboração.
Linfedema primário e pediátrico, anomalias vasculares e outras doenças vasculares raras têm percursos e especificidades diferentes, mas beneficiam de algo em comum: redes de conhecimento capazes de aproximar especialistas, centros de referência e representantes dos doentes.
A voz dos doentes faz parte da construção do conhecimento
Para a andLINFA, participar num congresso científico internacional não significa apenas assistir a apresentações.
Significa ouvir, aprender, questionar, estabelecer pontes e levar connosco aquilo que pode contribuir para melhorar a informação e os cuidados prestados às pessoas que representamos.
Mas significa também levar a esses espaços a experiência de quem vive diariamente com estas doenças.
A experiência do doente não substitui a evidência científica nem o conhecimento dos profissionais de saúde. Da mesma forma, a ciência beneficia quando consegue escutar as necessidades, dificuldades e prioridades das pessoas a quem se destina.
São conhecimentos diferentes — e é precisamente por serem diferentes que se complementam.
É este modelo de colaboração que defendemos: não trabalhar apenas para os doentes, mas trabalhar com os doentes.
Valência terminou. O trabalho continua.
Regressamos destes quatro dias com mais conhecimento, novos contactos, novas perguntas e também com a confirmação de que a linfologia continua a ser uma área onde há muito por investigar, compreender e construir.
Do diagnóstico precoce às novas tecnologias de avaliação, da compressão ao exercício, do tratamento conservador à cirurgia, do linfedema pediátrico ao linfedema relacionado com o cancro e ao lipedema, o Congresso mostrou uma área em evolução.
E mostrou também algo que para a andLINFA é particularmente importante: a ciência avança quando diferentes conhecimentos se encontram, quando existe espaço para questionar e quando profissionais, investigadores e representantes dos doentes conseguem trabalhar em conjunto.
A andLINFA agradece à European Society of Lymphology, ao Grupo Español de Linfología, à Presidente do Congresso, Isabel Forner-Cordero, aos comités científico e organizador e a todos os profissionais, investigadores e representantes de doentes que contribuíram para estes quatro dias de ciência e partilha.
Levamos de Valência uma mensagem simples:
Precisamos de mais ciência.
Precisamos de continuar a questionar.
Precisamos de transformar conhecimento em melhores cuidados.
E precisamos de fazer esse caminho com os doentes — e não apenas para os doentes.
Valência terminou. O trabalho continua.