
Drenagem linfática manual no lipedema: novo estudo identifica alterações no sódio dos tecidos e na dor
2026-10-07
Um estudo publicado em 2026, agora, na revista científica Frontiers in Cell and Developmental Biology utilizou técnicas avançadas de ressonância magnética para investigar o que acontece nos tecidos de mulheres com lipedema antes e imediatamente depois de uma sessão de drenagem linfática manual (DLM).
Os resultados são interessantes: após uma única sessão de DLM, os investigadores observaram uma redução mensurável do sódio nos tecidos e alterações em parâmetros relacionados com a água tecidular, acompanhadas por uma diminuição da dor referida pelas participantes.
O estudo não demonstra que a DLM trate a causa do lipedema nem que estes efeitos se mantenham a longo prazo. Mas acrescenta informação importante para compreender melhor o que acontece nos tecidos afetados pelo lipedema e quais poderão ser alguns dos mecanismos associados ao alívio sintomático após a DLM.
O que procuraram perceber os investigadores?
A drenagem linfática manual é utilizada em algumas pessoas com lipedema no contexto do tratamento conservador, particularmente com objetivos relacionados com o controlo dos sintomas.
No entanto, permanecem questões importantes sobre os mecanismos fisiológicos que poderão explicar os efeitos sentidos por algumas pessoas.
Neste estudo, os investigadores procuraram perceber se uma sessão padronizada de DLM provocava alterações objetivamente mensuráveis nos tecidos, nomeadamente ao nível do sódio e de parâmetros de ressonância magnética relacionados com a água tecidular.
Para isso recorreram a técnicas quantitativas de ressonância magnética, incluindo imagem de sódio (^23Na MRI).
Quem participou no estudo?
Participaram:
- 15 mulheres com lipedema, cinco em cada estádio I, II e III;
- 13 mulheres com linfedema unilateral;
- 5 mulheres sem lipedema ou linfedema, utilizadas como grupo controlo.
As participantes com lipedema e linfedema foram avaliadas através de ressonância magnética antes e depois de uma sessão padronizada de uma hora de drenagem linfática manual.
Os investigadores avaliaram diferentes características dos tecidos, incluindo o sódio, parâmetros relacionados com a água, a gordura e características da pele, tecido adiposo subcutâneo e músculo.
A intensidade da dor foi também registada.
O que encontraram nas mulheres com lipedema?
Antes da realização da DLM, as mulheres com lipedema apresentavam diferenças mensuráveis relativamente ao grupo controlo.
Uma das mais interessantes dizia respeito ao sódio presente nos tecidos.
Na pele, a concentração mediana de sódio foi:
17,7 mmol/L nas mulheres com lipedema, comparativamente com 12,3 mmol/L no grupo controlo.
No grupo com linfedema, os valores foram ainda superiores, atingindo uma mediana de 32,1 mmol/L.
Os resultados mostram, portanto, diferenças entre os três grupos e sugerem que no lipedema existem alterações da composição dos tecidos relacionadas com o sódio e com o compartimento intersticial.
Mais sódio nos tecidos, maior estádio do lipedema?
Os investigadores encontraram também uma associação entre a concentração de sódio nos tecidos e o estádio clínico do lipedema.
Quanto mais avançado era o estádio, maior tendia a ser a concentração de sódio observada.
Foi igualmente encontrada uma associação entre maiores concentrações de sódio e maior intensidade da dor referida pelas participantes.
Estas associações são particularmente interessantes para a investigação da fisiopatologia do lipedema, mas não demonstram, por si só, uma relação direta de causa e efeito.
O que aconteceu depois de uma hora de drenagem linfática manual?
Após uma única sessão de DLM foram identificadas alterações mensuráveis.
Nas mulheres com lipedema, o sódio na pele diminuiu, em mediana, de: 17,7 para 14,8 mmol/L.
Também se verificou uma diminuição de um parâmetro de ressonância magnética – o T2 – sensível às características da água nos tecidos.
Paralelamente, verificou-se uma redução da dor referida pelas participantes.
A mediana da intensidade da dor passou de:
2 antes da DLM para 0 imediatamente após a sessão.
Os autores consideram que os resultados são compatíveis com a hipótese de que a DLM possa promover a mobilização de fluido intersticial rico em sódio.
Porque é este resultado interessante?
O lipedema é frequentemente associado sobretudo à distribuição anormal e desproporcionada do tecido adiposo.
Este estudo chama a atenção para uma realidade potencialmente mais complexa.
Os resultados sugerem que, nos tecidos afetados pelo lipedema, podem existir também alterações do microambiente intersticial, envolvendo água e sódio, e que algumas dessas características podem modificar-se após uma intervenção física como a DLM.
A possibilidade de observar estas alterações através de técnicas quantitativas de ressonância magnética abre também novas perspetivas para a investigação.
Permite começar a estudar de forma objetiva fenómenos que, durante muito tempo, foram avaliados essencialmente através dos sintomas relatados pelas pessoas com lipedema.
O que podemos concluir sobre a drenagem linfática manual?
É importante interpretar estes resultados com prudência.
O estudo mostra que uma sessão de DLM esteve associada a alterações imediatas e mensuráveis nos tecidos e a uma redução da dor.
Mas isto não significa que tenha sido demonstrado que a DLM:
- modifica a progressão do lipedema;
- reduz permanentemente o tecido adiposo associado à doença;
- produza benefícios duradouros;
- seja necessária ou indicada para todas as pessoas com lipedema;
- ou deva ser utilizada isoladamente como tratamento do lipedema.
Também não é possível, a partir deste estudo, estabelecer qual deveria ser a frequência ou duração de um eventual programa de DLM.
Um estudo importante, mas ainda pequeno
Há uma limitação fundamental que deve ser tida em consideração: apenas 15 mulheres com lipedema participaram no estudo, cinco em cada estádio.
Além disso, os investigadores analisaram essencialmente o efeito imediato de uma única sessão.
Não sabemos, a partir destes resultados, quanto tempo persistem as alterações observadas nem se sessões repetidas produziriam resultados semelhantes, cumulativos ou clinicamente relevantes a longo prazo.
Serão necessários estudos com um maior número de participantes, grupos de comparação adequados e acompanhamento durante períodos mais longos.
O que este estudo acrescenta?
Talvez uma das mensagens mais interessantes deste trabalho seja precisamente esta:
o tecido afetado pelo lipedema não deve ser analisado apenas na perspetiva do tecido adiposo.
O estudo encontrou diferenças mensuráveis relacionadas com o sódio e com a água nos tecidos e mostrou que alguns desses parâmetros se alteraram imediatamente após a DLM.
Ao mesmo tempo, a redução da dor observada levanta novas questões sobre uma eventual relação entre microambiente intersticial, sódio, dinâmica dos fluidos e sintomatologia dolorosa no lipedema.
São questões que a investigação terá agora de aprofundar.
Para as pessoas que vivem com lipedema, estes resultados são relevantes não porque forneçam uma resposta definitiva sobre a DLM, mas porque contribuem para compreender melhor o que acontece nos tecidos e porque determinadas intervenções podem influenciar alguns sintomas.
Informação importante
A drenagem linfática manual deve ser considerada no contexto das necessidades individuais de cada pessoa e integrada, quando indicada, num plano terapêutico definido por profissionais de saúde com conhecimento do lipedema.
A informação apresentada neste artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um profissional de saúde.
Fonte científica
Nöll E, Henkel A, Cornely ME, Dinnendahl R, Breuer E, Nowak S, Hucho T, Luetkens JA, Pieper CC.
Manual Lymphatic Drainage reduces tissue sodium and pain reports in women with Lipedema – A Quantitative MRI Study.
Frontiers in Cell and Developmental Biology. 2026.
DOI: 10.3389/fcell.2026.1808579
__________________________________________________
Glossário – compreender os principais termos do estudo
Sódio (Na)
É um eletrólito essencial ao funcionamento do organismo e participa, entre outras funções, no equilíbrio dos líquidos. Neste estudo, os investigadores avaliaram especificamente a concentração de sódio nos tecidos das pernas, através de uma técnica especial de ressonância magnética (^23Na MRI)
Sódio nos tecidos ≠ sódio no sangue
Esta distinção é muito importante. Os valores apresentados no estudo não correspondem a uma análise de sangue e não devem ser comparados com os valores laboratoriais de sódio sérico.
O estudo encontrou, na pele, antes da DLM:
| Grupo | Sódio na pele – mediana |
|---|---|
| Mulheres saudáveis (controlo) | 12,3 mmol/L |
| Mulheres com lipedema | 17,7 mmol/L |
| Mulheres com linfedema | 32,1 mmol/L |
| Lipedema após 1 sessão de DLM | 14,8 mmol/L |
Assim, as mulheres com lipedema apresentavam, neste estudo, mais sódio na pele do que o pequeno grupo controlo saudável e menos do que o grupo com linfedema.
Após a DLM, a mediana diminuiu de 17,7 para 14,8 mmol/L.
⚠️ Podemos dizer que 12,3 mmol/L é o valor “normal”?
Não. Esta é uma distinção que eu faria explicitamente no site. 12,3 mmol/L foi a mediana encontrada nas cinco mulheres saudáveis deste estudo, não um intervalo de referência estabelecido para a população. O estudo não define um valor de sódio tecidular a partir do qual se possa diagnosticar lipedema ou linfedema.
^23Na MRI (ressonância magnética de sódio)
Técnica de ressonância magnética que permite estimar a concentração de sódio nos tecidos de forma não invasiva. Neste trabalho, as imagens foram calibradas para permitir expressar os resultados em mmol/L. Frontiers
mmol/L
Significa milimoles por litro, uma unidade utilizada para expressar concentração. Neste estudo, refere-se à concentração estimada de sódio no tecido analisado.
Fluido intersticial
É o líquido existente nos pequenos espaços entre as células dos tecidos. Contém água, eletrólitos — incluindo sódio — e outras substâncias. Os autores interpretam a diminuição do sódio e de outros parâmetros após a DLM como indicativa da mobilização de fluido intersticial rico em sódio.
T2
É um parâmetro obtido através da ressonância magnética, expresso em milissegundos (ms), que é sensível às características da água presente nos tecidos. Neste estudo, o T2 da pele das mulheres com lipedema apresentou uma mediana de 56 ms antes da DLM e 43 ms depois. Nas mulheres saudáveis do grupo controlo, a mediana inicial foi 37 ms.
DLM – Drenagem Linfática Manual
Técnica manual utilizada no contexto do tratamento conservador. Neste estudo foi realizada uma sessão padronizada de 60 minutos, seguida imediatamente de nova avaliação por ressonância magnética.
NRS – Escala Numérica da Dor
Escala em que a pessoa classifica a intensidade da dor de 0 (sem dor) a 10 (pior dor imaginável). Nas mulheres com lipedema, a mediana passou de 2 antes da DLM para 0 imediatamente depois.
Correlação
Significa que duas variáveis apresentam uma relação estatística, mas não prova que uma seja a causa da outra. Neste estudo, maior concentração de sódio tecidular esteve associada a estádio clínico mais avançado do lipedema e a maior intensidade de dor.
Mediana
É o valor que fica no meio quando os resultados são ordenados. Portanto, quando dizemos 17,7 mmol/L no lipedema, não significa que todas as 15 mulheres apresentassem esse valor.
NOTA:
Os valores de sódio apresentados neste estudo são valores medidos nos tecidos por ressonância magnética e não valores de sódio no sangue. O estudo não estabelece valores “normais” ou valores de diagnóstico para o lipedema. Os 12,3 mmol/L correspondem apenas à mediana encontrada no pequeno grupo de cinco mulheres saudáveis utilizado como controlo.